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Pesquisador: "Quanto mais se ignora a Covid, mais ela cobra"

Pesquisador: "Quanto mais se ignora a Covid, mais ela cobra"


11/01/2021

Nas últimas semanas, os números de casos de infecção por Covid-19 e óbitos em Mato Grosso voltaram a subir. Isso ocorre, segundo o epidemiologista Diego Xavier, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde da Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz), por conta do negacionismo da população em relação ao vírus.

Em entrevista ao MidiaNews, o pesquisador aponta que a população está ignorando a doença, como se ela não existisse ou tivesse sido erradicada, e com isso tomando atitudes que contribuem para o avanço da Covid-19.

“Quanto mais as pessoas não seguirem as orientações, agirem de forma individual, quanto mais as pessoas deixarem de utilizar máscara, álcool em gel, e principalmente se aglomerar, mais o vírus se transmite. Quanto mais a gente tem esse tipo de posicionamento negacionista, esse tipo de busca de uma solução fácil, maior vai ser o número de óbitos”, afirma.

Segundo Xavier, a população relaxou no fim de ano, com as compras de Natal e confraternizações. Isso pode ter grandes consequências nos próximos dias e alerta para aproximação de caos na Saúde, como Estado viveu em meados de junho e julho.

“A tendência é que tenha um aumento no número de casos e de casos graves. As festas de fim de ano, principalmente Natal, as pessoas costumam passar com a família e têm idosos, pais, mães”.

MidiaNews - Quais as projeções da Covid-19 em Mato Grosso após essas festas de fim de ano?

Diego Xavier - A projeção é a mesma que estamos observando em outros locais. A tendência é que tenha um aumento no número de casos e de casos graves. Nas festas de fim de ano, principalmente Natal, as pessoas costumam passar com a família e têm idosos, pais, mães. Essas pessoas, infelizmente, acabaram sendo expostas. Temos observado em vários locais do País um aumento de casos e casos graves, em Mato Grosso também. Também tem a questão das compras de fim de ano, as viagens, as festas de ano novo, as férias. Tudo isso faz com que o vírus circule mais. A gente já sabe, estamos falando isso desde o ano passado, que quanto mais o vírus circular, mais casos a gente vai ter.

MidiaNews - Em Mato Grosso a situação deve ser grave também?

Diego Xavier - Cada local tem sua particularidade. O Sul, por exemplo, está enfrentando um momento difícil. Mato Grosso passou o ano todo com boa parte dos leitos hospitalares ocupados. O Estado acreditou muito em pílulas sem comprovação científica. Não foram poucos os municípios, o próprio Governo do Estado, que apostaram no kit Covid e agora a gente está vendo. Se a gente colocar proporcionalmente, até o início de dezembro, a mortalidade em Mato Groso era superior ao do Amazonas. Mato Grosso é um País, que tem recursos financeiros. O deslocamento no Amazonas é muito mais difícil, é uma floresta. Em Mato Grosso você tem uma possibilidade de deslocamento mais fácil, você tem um recurso do agronegócio, é um Estado mais rico. Ter uma taxa de mortalidade mais alta do que um Estado mais pobre como o Amazonas é lamentável para Mato Grosso. Isso, em grande parte, é justificado por conta de medidas que não funcionaram. A gente gostaria muito que funcionassem a Cloroquina, Ivermectina, mas não funcionam. A gente faz um estudo científico, como é feito para as vacinas, e não apresenta efeito nenhum, não tem diferença nenhuma usar ou não usar esse tipo de medicamento. Tanto que a cada hora é um medicamento novo. Primeiro foi a Cloroquina, depois a Ivermectina, Azitromicina... E continuam fazendo esse tipo de prescrição acreditando que isso tem feito com que a doença diminua.

MidiaNews - O senhor projeta caos na Saúde novamente, como ocorreu em meados de junho e julho em Mato Grosso?

Diego Xavier - Quanto mais se ignora a Covid, mais ela cobra. Isso é o que a gente tem visto. Quanto mais as pessoas não seguirem as orientações, agirem de forma individual, quanto mais as pessoas deixarem de utilizar máscara, álcool em gel e principalmente se aglomerar, mais o vírus se transmite. Isso é em todos os locais, não só em Mato Grosso, no Brasil. É no Mundo. Quanto mais a gente tem esse tipo de posicionamento negacionista, esse tipo de busca de uma solução fácil, maior vai ser o número de óbitos. A gente tem um ano pela frente, vamos começar o processo de vacinação, mas se tivermos a vacina disponível, seringa disponível, gente treinada e capacitada, é muito provável que a gente não chegue ao final do ano com toda a população imunizada. O que a gente vai fazer até lá? O que estamos falando desde o início dessa epidemia: se cuidar, evitar aglomeração, utilizar máscara, mesmo se já tenha pegado a doença porque é uma questão coletiva. Enquanto a gente não pensar coletivamente, a gente vai continuar perdendo para a doença. É lamentável que a gente tenha o SUS, que a gente tenha os sistemas que a gente tem, os profissionais que a gente tem, e por conta de um discurso negacionista por conta de uma falta de coordenação e por acreditar em solução fácil, a gente esteja com estes números de hoje. São 200 mil pessoas que morreram e poderia ter sido evitado, com certeza. Esses 2 mil novos casos no Estado em um dia só mostram que a doença continua acelerada. A gente tem observado isso no País todo.

As pessoas relaxaram durante o final de ano. A gente vê principalmente a população mais jovem dizer que está cansada de ficar em casa. Seria interessante para eles se colocarem no lugar de uma equipe de saúde intensivista que está dentro da UTI desde março vendo gente morrendo. Se a população está cansada de ficar em casa, imagina como estão esses profissionais? Eles continuam indo trabalhar e vendo a população ignorando, fazendo festa de 300 pessoas e achando que está tudo bem, que o problema já passou. Infelizmente não passou. E se a gente não tomar essas medidas, daqui a pouco começa o período letivo e vai ser difícil mandar as crianças para a escola com número de casos e óbitos e leitos de UTI ocupados. A doença vai voltar a aumentar. Quanto mais circularem pessoas, mais a doença se espalha.

MidiaNews - Os posicionamentos e medidas adotadas pelo poder público de Mato Grosso frente às festas de fim de ano contribuíram para esse aumento?

Diego Xavier - Não acompanhei qual foi a orientação em Mato Grosso da parte dos governantes. Pela parte científica, a gente tem feito alertas desde setembro avisando sobre a movimentação das pessoas durante o final de ano. Quando a gente olha para o Brasil todo, a população parece que não contribuiu, mesmo em alguns locais em que as medidas devem ter sido tomadas. A população não contribuiu porque o discurso não é único. A gente tem, infelizmente, um presidente que adota uma postura negacionista, como se a doença não existisse, a gente tem alguns governantes que seguem essa linha de sustentação de uma ideologia que não se aplica a uma questão sanitária e infelizmente é isso que a gente vê. Isso só enfraquece as políticas e faz com que morra mais gente. As pessoas estão morrendo, em grande parte, por conta desse tipo de comportamento dos governantes que a gente elegeu para que cuidassem da população, mas eles estão mais interessados em cuidar das suas questões pessoais e isso está refletindo na saúde da população.

MidiaNews - O prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, chegou a dizer que não fará lockdown. Como o senhor analisa esta declaração?

Diego Xavier - Acho que é difícil quando a gente pensa no setor comercial, que já sofreu muito e não teve apoio econômico. O apoio econômico, principalmente para o pequeno empresário, não chegou. O setor de serviços, que é o que mais emprega, não teve apoio e ficou em uma situação bastante difícil e teve que fechar suas portas. Agora precisa retomar e se tiver que fechar de novo, a maioria não vai conseguir reabrir. Acho que, quando a gente escuta esse tipo de posicionamento, que não vai fechar se precisar, mostra a incapacidade dos gestores. Se a gente tivesse condições de suprir esses pequenos, principalmente, e a gente tem uma situação caótica na saúde, com certeza esses comerciantes fariam o que tem que ser feito. Mas é algo que temos observado desde o início da pandemia, a transferência de responsabilidade. O Governo Federal transferindo para os governos estaduais e eles transferindo para os prefeitos e os prefeitos transferem para a população. É lamentável que a gente tenha um sistema representativo democrático que no final o indivíduo é que tem que tomar a decisão sem apoio do Estado. É difícil tomar essa medida de lockdown. Acredito que o prefeito de Cuiabá não vá fazer, independente de quantas pessoas morram, independente da capacidade de atendimento do serviço de saúde, mas a gente sabe que a Covid-19 lota os hospitais e os outros problemas de saúde continuam acontecendo. Muita gente vai morrer, não só por Covid, mas qualquer outro problema de saúde que tende a aumentar.

MidiaNews - Quais são as perspectivas de vacinação em Mato Grosso? Pode demorar um pouco para chegar aqui?

Diego Xavier - Se seguir o Plano Nacional de Imunização, a tendência é que essa questão de localização não interfira. O plano considera os extratos populacionais com maior risco. A gente começa vacinando principalmente os idosos, pessoas com fatores de risco, independente do local onde ele reside. Se for seguido isso e a gente tiver um suporte logístico, a vacinação deve acontecer nos grupos de risco em todos os locais do País. Depois a gente vai para os outros extratos populacionais. Mas isso depende muito de uma coisa que o Ministério da Saúde até agora não fez, que é coordenar. Ele não coordenou nada até agora. Ele simplesmente atribuiu a responsabilidade às outras esferas governamentais.

 

 

BIANCA FUJIMORI
DA REDAÇÃO

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